terça-feira, 19 de junho de 2007

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;Come chocolates!Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.Come, pequena suja, come!Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!Meu coração é um balde despejado.Como os que invocam espíritos invocam espíritos invocoA mim mesmo e não encontro nada.Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,Vejo os cães que também existem,E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeiraTalvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928

Referências bibliográficas

Já sabes que em qualquer trabalho que realizes tens de indicar as fontes consultadas: livros, revistas e, até, páginas da Internet.
Sabes, também, que há regras a seguir na indicação bibliográfica.
Pois bem… está disponível na biblioteca escolar um guia com as regras de referência bibliográfica e com as regras das citações. Há, ainda, uma apresentação em powerpoint na biblioteca que pode ser utilizada nas aulas por alunos e professores.
Neste blog disponibilizamos alguns exemplos de referências bibliográficas.
Bom trabalho!
3. Elementos das referências bibliográficas: ordem de apresentação.
3.1 Monografias – exemplo:
AUTOR: em primeiro lugar, o apelido e depois o nome próprio
Título: Como aparece no livro.
Edição
Local de publicação:
Editor,
Data de publicação .

MARTA, Ilídio da Silva -
Pinhel Falcão.
2ª ed.
Pinhel:
Ed. do autor,
1996.

Ex.: MARTA, Ilídio da Silva – Pinhel Falcão. 2.ª ed. Pinhel: ed. do autor, 1996.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

ALUNOS DE INGLÊS EM LISBOA


O dia 1 de Junho de 2007 foi um dia repleto de emoções para 244 alunos da Escola Secundária/3 de Pinhel, que tiveram oportunidade de assistir à peça "Contos de Shakespeare" no Teatro D. Maria II em Lisboa.

A tarde foi passada no Parque das Nações com uma visita ao Oceanário.

Esta visita de estudo, marcada por uma presença "em peso" de alunos na capital, foi um sucesso e muito enriquecedora para todos os que participaram!!!


terça-feira, 5 de junho de 2007

SophiArte

Saiu.... sim finalmente saiu... com dificuldade, mas acho que valeu a pena.
O trabalho de toda a gente envolvida, tinha que dar frutos... e que frutos.
Pela minha parte fiquei... contente.
Se puderem arranjem, comprem, leiam ou simplesmente apreciem.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Parlamento dos Jovens - Sessão Nacional



Nos dias 14 e 15 de Maio de 2007 dois alunos desta escola, Cristiano Saraiva dos Santos e Maria de Jesus Fonseca de Sousa, e dois alunos da Escola de Figueira de Castelo Rodrigo, representaram o Distrito da Guarda na Sessão Nacional do Parlamento dos Jovens que decorreu na Assembleia da República. Foram acompanhados por dois professores (Manuel Perestrelo e Nelson Almeida) e ficaram alojados na Pousada da Juventude de Oeiras.
O transporte foi oferecido pela Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo, a quem a escola agradece.

Manuel Perestrelo

Salvar o planeta, salvar a civilização


O grupo de Geografia da nossa escola, em colaboração com a Câmara Municipal de Pinhel, trouxe a Pinhel o conhecido meteorologista Dr. Manuel Costa Alves para falar sobre questões ambientais. O cine teatro de Pinhel encheu-se de alunos (e professores) que ouviram, entre outras coisas, que está nas nossas mãos salvarmos planeta da provável destruição. A preservação do modo de vida que hoje conhecemos implica a redução da poluição, causadora de distúrbios climáticos graves.
Como todos sabem, esta questão está na ordem do dia. Há poucos dias deu entrada na biblioteca da Escola Secundária/3 de Pinhel um excelente livro sobre o estado do planeta. O Washington Post considerou o autor desse livro, Lester Brown, "one of the world's most influential thinkers." O livro tem como título “Plano B 2.0: Resgatando um planeta sob stress e uma civilização em apuros” e foi editado em Portugal pela Câmara Municipal de Trancoso.
Logo na página de apresentação do livro Bill Clinton escreve o seguinte: “Lester Brown conta-nos como construir um mundo mais justo e salvar o planeta de mudanças climáticas numa forma prática e directa.” E acrescente: “deveríamos todos seguir os seus conselhos”.
Como poderemos mudar o estado das coisas? O que podemos fazer para “salvar a civilização” nas palavras de Lester Brown?
O autor dá várias respostas pertinentes. Destaco, apenas, uma delas: “depende de si e de mim, do que você e eu fizermos para inverter estas tendências (declínio económico e colapso da civilização). Isso quer dizer, tornar-se activo politicamente. Salvar a nossa civilização não é um desporto de espectadores.” (Brown, 2006, p. 358).
Para os interessados: pode-se fazer download da versão portuguesa deste livro em:



Indicação bibliográfica:
Brown, Lester R., Plano B 2.0: Resgatando um planeta sob stress e uma civilização em apuros, Câmara Municipal de Trancoso (edição em língua portuguesa). Earth Policy Institute (edição original em inglês) 2006

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Apresentações sobre o ECD e Acesso a Professor Titular

ME disponibiliza apresentações sobre o ECD e o acesso a professor titular
O Ministério da Educação disponibiliza no seu portal(ligação na frase anterior) as apresentações utilizadas nas reuniões com os conselhos executivos, no mês Abril, relacionadas com o Estatuto da Carreira Docente e o concurso de acesso a professor titular.

sexta-feira, 30 de março de 2007

"A Escola em Movimento"

A Escola Secundária/3 de Pinhel, em parceria com o Municipio de Pinhel, a Empresa Municipal de Pinhel e o Projecto Ciência Viva, vão realizar a 12 e 13 de Abril, no Centro de Congressos e Exposições de Pinhel a Feira de Orientação Escolar e Profissional e a V Feira das Ciências.

Horário:

12 de Abril (Cerimónia de Abertura: 11:00h - 12:30h//14:30h - 17:30h)

13 de Abril (9:30h - 12:30h // 14:30h - 16:00h)

Entrada gratuita. Contamos com a vossa presença.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Cursos CEF e Profissionais para 2007/2008

Encontram-se abertas as incrições para novos cursos - CEF e PROFISSIONAIS para o Ano Lectivo 2007/2008.
CEF - Operador de Sistemas Informáticos

CEFs - Electricista de Instalações e Empregado de Mesa

Profissionais - Técnico de Informática de Gestão e Técnico de Secretariado